segunda-feira, 19 de maio de 2008

Condorcet: Um Mestre Revolucionário

“Sob a mais livre das constituições, um povo ignorante é sempre escravo”, escreveu o inspirado francês Marie-Jean-Antoine-Nicolas Caritas Condorcet.
Literato, filósofo, economista, matemático e político, ele sucumbiu numa prisão parisiense no ano de 1794 nas mãos dos terríveis jacobinos liderados por Robespierre, depois de ter colaborado ativamente naquele movimento revolucionário que pretendia acabar com os desmandos de uma monarquia abusiva, mas acabou tornando-se o primeiro grande movimento terrorista de que se tem noticia. “A arma da Revolução é o terror”, afirmava Robespierre transformado em personagem na “Morte de Danton” do escritor George Buchner. Possivelmente ele tenha sido o pai de todos os terroristas e a Revolução Francesa o berço dos indignados que imaginam que o terror e a violência possam resolver as desavenças que a inteligência e a sensibilidade humanas não souberam conciliar; e o inspirado Marquês de Condorcet uma das mais ilustres vitimas do terror naquele tempo.
Condorcet concebia a possibilidade do aperfeiçoamento humano e foi contagiado pelo otimismo e pela indignação de Voltaire contra os impostores e ditadores, e de quem foi editor. Em “Esboço de Um Quadro Histórico dos Progressos do Espírito Humano”, sua visão otimista fica muito evidente, contrapondo-se ao pessimismo de alguns pensadores da época. Foi vítima do Terror por contrapor-se à hegemonia ditatorial dos jacobinos - impostores de estreitas luzes que até hoje têm assento em muitas instituições-que não admitiam oposição de nenhuma espécie e se refestelavam no poder indefinidamente. Considerava que o desenvolvimento humano não poderia coexistir com os preconceitos e as crenças, pois estaria alicerçado na liberdade de pensar; que o progresso coletivo dependia do progresso dos indivíduos, material e espiritualmente falando.
Condorcet idealizou a escola pública na França que foi modelo para todo o mundo; defendeu as liberdades da mulher, as aposentadorias e pensões, o combate às guerras, o controle inteligente da natalidade.
Com tantas idéias, tanta vontade de viver, tanto otimismo, morreu solitário nos porões do terror sufocado pelo ódio dos poderosos para os quais tudo se resume no poder, na riqueza e no jogo de seus mesquinhos interesses.
O que os impostores e os ditadores não compreendem é que os pensamentos criados pelos Condorcet sobreviverão e chegarão à mente de muitas pessoas no futuro, transportando os ideais de progresso e aperfeiçoamento humanos através do fomento ao estudo, à educação, e que nenhuma violência conseguirá calá-los. Os homens e os povos do futuro poderão, então, liberar-se das amarras seculares que engendram os ódios, os rancores e as guerras.
A humanidade deve muito ao Marquês de Condorcet e haverá de honrar a sua memória comungando com os nobres ideais que inspiraram a sua vida.

Nagib Anderáos Neto

domingo, 18 de maio de 2008

Consciência Ambiental

A grave crise ecológica que a humanidade atravessa é o resultado da crise moral e espiritual que vem se acentuando há séculos pelo afastamento do homem de valores essenciais à sua natureza como o respeito para consigo mesmo e para com os outros seres humanos seus irmãos.

O homem vem se brutalizando, apesar do avanço tecnológico, produto do desenvolvimento intelectual que foi incapaz de humanizá-lo. As grandes descobertas e os grandes avanços têm servido para infernizar a sua existência e endurecer o seu coração incapaz de abrandar a ira de uma razão instintiva que o tornou inimigo de si mesmo e da Natureza.

A crise ambiental é conseqüência desta grave crise espiritual. Para salvar o meio ambiente o ser humano deverá salvar-se utilizando a sua inteligência e o seu coração.

Há problemas emergenciais a serem resolvidos: a destruição das florestas, da camada de ozônio, a contaminação dos solos e das águas, o consumismo desenfreado, a explosão demográfica, a educação. Mas sempre será um enfrentamento às conseqüências e não às causas, como no caso da violência, que emergencialmente deve ser combatida com policiamento, leis severas, justiça rápida, mas que ao longo prazo deverá ser combatida com educação e distribuição de renda.

Às crianças se deve ensinar a respeitar o semelhante e a Natureza, nos bancos escolares e nos lares. Mas quem haverá de fazê-lo se os próprios docentes não adotam este comportamento?

Uma grande revolução educacional deverá ser levada a cabo, começando por educar os adultos para que aprendam a controlar e dominar os pensamentos violentos que de mente em mente fazem os estragos que se conhece muito bem.

O homem deixou de pensar seriamente, espiritualmente, para pensar superficialmente, materialmente, egoistamente. A crise moral e espiritual é produto da ignorância e poderá levar o planeta à falência.

Além de reinventar um automóvel que produza menos dióxido de carbono, uma indústria que não dependa da queima de carvão e petróleo, cidades ecológicas que tratem seus afluentes e privilegiem o transporte público, que cuidem do lixo, reciclem e reusem, deveremos reinventar o homem, cada um reinventando-se, transformando-se, mudando o comportamento, deixando de ser o que é para transformar-se num ser humano melhor.

O colapso social é iminente defronte da violência incontrolada, da dependência das drogas e da pobreza.

Há muito se vem dizendo que é necessário que se amplie a consciência humana que é signo de conhecimento e evolução, e que este é o único caminho que cada um deverá percorrer com os próprios pés. Mas como fazê-lo? Como deixar de ser inconsciente para ser consciente?

E o que é afinal a consciência?

Alguém já disse que uma mente distraída é uma mente separada de Deus. A distração é uma ausência, uma inconsciência. É possível que Deus esteja relacionado a este estado de atenção interior, a uma atitude consciente.

Numa sociedade doentia onde o objetivo da vida é o prazer, as pessoas ficam felizes quando matam o tempo conquistado com suor sem se aperceberem que ao matarem o tempo estão matando a vida. A mola principal de uma sociedade de infelizes é o egoísmo, a ganância que promove um progresso duvidoso.

A única alternativa para a catástrofe iminente é uma profunda revolução psicológica para o surgimento de uma nova sociedade formada por novos seres humanos que desmontem o egoísmo e o materialismo herdados de civilizações fracassadas.

O homem dever aprender a viver equilibradamente em dois mundos simultâneos: o interior e o exterior, ambos intimamente relacionados, que merecem a maior atenção. Eles se complementam e fazem parte de uma mesma e única realidade. O desequilíbrio ou a ausência de qualquer deles causa o vazio e a depressão.

Viver sempre fora de si mesmo, só para o mundo exterior é triste, vazio, incompleto. Enquanto que viver só para dentro de si mesmo é solitário, egoísta, monótono. As duas vidas, a interior e exterior, devem caminhar bem, e paralelamente. A crise em uma significa o desastre na outra.

A crise espiritual e a ecológica são uma e a mesma, pois o homem tem vivido fora de si mesmo, materialmente, desequilibradamente, solitariamente, desumanamente. Ele deve preocupar-se agora com o meio ambiente, e também consigo mesmo. Ser melhor para conviver melhor consigo mesmo, com seus amigos e com a Natureza. Deveremos estar mais atentos para não nos afastarmos mais ainda de Deus, que outra coisa não é que atenção, amor, harmonia, consciência, e que se resume numa palavra: Verdade.

Tudo o que distancie o ser humano de seus semelhantes e da Natureza não é verdadeiro e é contrário a Deus, pois Ele está em tudo e em todos, e magnificamente representado em cada inteligência, em cada coração, em cada amanhecer, em cada criança, em seu maravilhoso templo exterior chamado Natureza, e em seu magnífico templo interior chamado consciência.

Nagib Anderáos Neto

www.nagibanderaos.com.br

sábado, 17 de maio de 2008

Zelia Gattai

A tia Zelia faleceu hoje.
Eu a conheci em 71 na casa do Rio Vermelho, carnaval na Bahia, e lá fiquei noivo de sua sobrinha, a Marice Gattai, com quem me casei. A Luiza Gattai, minha netinha, fez com que o dia de hoje não ficasse muito triste.
Lembrei-me de um texto que está em meu livrinho onde falava dela.
Transcrevo:

para uma jovem escritora

“Este casamento você deve a mim”, disse-me a escritora enquanto autografava seu último livro. Aos 85 anos, ainda mantinha um olhar juvenil, uma vivacidade privativa do espírito que não envelhece e fica cada vez mais jovem quanto maior a atividade. Ela se tornara escritora aos sessenta anos. Sempre fora uma exímia contadora de histórias. A convivência com o marido-escritor introduzira-a na carreira. Agora eram vários livros publicados e pela primeira vez autografava na solidão; o companheiro partira e ela não desistira do ofício, uma maneira de se manter viva, projetar a vida para além das fronteiras, viver em vários lugares ao mesmo tempo.

“Este casamento você deve a mim.”

Reportei-me a Salvador, trinta anos passados, a longínqua capital com suas cores, cheiros, ladeiras, praias, farol e carnavais. Não sei por quais desígnios a cidade me imantara. A praia da Barra e o encontro casual com o Edson Gattai me levaram a conhecer a escritora na casa do Rio Vermelho.

Nesses trinta anos eu a vira duas ou três vezes. Ela fora uma espécie de intermediadora sentimental entre mim e sua sobrinha com quem me casei. Daquela longínqua cidade voltei com uma determinação que se cumpriu.

Sua obra é memorialista. Retoma trechos da história de sua vida que se confunde com a nossa, com a da cidade de São Paulo, com a do Brasil e de tantos imigrantes que nos antecederam e prepararam o terreno para as futuras gerações.

Algumas de suas atitudes chamaram-me a atenção no decorrer desses longos anos: a fidelidade às amizades, independentemente da cor política ou do credo; a coragem de se declarar sem nenhum credo por não conceber uma vida depois da morte; a dedicação ao amado marido e à família; a altivez e a dignidade de quem não teme críticas.

Das posições mencionadas, eu faria apenas um reparo: se o companheiro continua vivendo em sua recordação, segredando coisas aos seus ouvidos, dizendo que ela é uma danada por ter entrado na Academia, então ele não morreu, nem para ela nem para os tantos leitores que, como eu, aprenderam com ele a gostar de ler e de escrever.

Extraído do livro Guardados Que Vivem.

Pensar e Realizar

Pensar é criar idéias, soluções, resolver problemas de toda a ordem, selecionar o que haverá de ser útil e servir para tornar a nossa vida feliz.

Pensar também é criar pensamentos que sirvam para o próprio aperfeiçoamento e superação, como também ajudar a outras pessoas nesse sentido. É um ato criativo onde a participação da sensibilidade é de extrema importância.

Em todo o processo de criação de um pensamento na mente, que começou como idéia, uma imagem mental, até sua manifestação neste mundo material, entrou em jogo essa função, a de pensar. Nesse caso, para a realização de algo físico, sólido, material. Muitos outros pensamentos podem ser criados para facilitar o trânsito pela Terra e seriam como insígnias que nos garantissem transpor os obstáculos da vida sem maiores dificuldades: paciência, tolerância, bondade, temperança, decisão, virtudes, enfim, produtos de nossa criação mental, de nossa capacidade de pensar.

Pensar não é recordar, uma outra função mental, e nem ser dirigido por pensamentos alheios. Pensar é maior, é ser criador dos próprios pensamentos e construtor do destino individual. Pensar é saber identificar os pensamentos que se tem na mente, em geral vindo de outras mentes, e selecionar o que haverá de ser útil para a nossa vida. Não é fácil e nem difícil. Exige constância, dedicação. É um aprendizado que pode e deve ser iniciado na infância. É uma arte pouco conhecida pelo homem moderno que já começa a fazer parte das preocupações dos educadores e haverá de conformar a pedagogia do futuro.

Pensar em Deus, na vida, no tempo e na morte, ao invés de aceitar passivamente suposições fantásticas e irreais sobre os conceitos mencionados, poderá ser o fio condutor que faça o ser humano sair do labirinto em que se encontra aprisionado por idéias sombrias e preconceitos seculares.

A verdadeira liberdade é a de pensar. É assim como o ser humano, o espírito humano, respira; pensando com liberdade, que é o mesmo que criar, que é o mesmo que ter um domínio sobre os pensamentos que habitam a própria mente ou que perambulam por aí de mente em mente fazendo os estragos que todos sabemos quais são.

Ser livre é usar com liberdade a inteligência, todas as suas faculdades, não somente a memória e a imaginação, como nos têm pretendido impor aqueles que nos querem manter atados às rédeas da submissão e da imposição.

Os tiranos, os ditadores, os inimigos da liberdade não querem que ninguém pense, porque tal grito de liberdade, tal oposição às imposições é a ameaça ao poder que as ânsias de domínio desenham em suas mentes doentias.

Pensar, observar, raciocinar, refletir, combinar e julgar são algumas faculdades da inteligência que não têm sido muito exigidas ou desenvolvidas pelo ser humano que pode, num grito de liberdade, deixar de ser joguete ou escravo de pensamentos alheios que nada têm a ver com a felicidade almejada pelos que sonham com a liberdade.

Pensar faz bem para a mente que reside no cérebro, para o corpo e para o espírito que se renova com esta atividade criativa, pois pensar é criar, respirar espiritualmente.

O exercício diário da função de pensar, onde entrarão em jogo o interesse, a atenção e o entendimento, fortalece a inteligência nas leituras e na criação pessoal que qualquer um pode realizar. Será também necessário aprender a ler a própria realidade pessoal e interior, e modificá-la, caso seja necessário. A ninguém está vedado desenvolver a própria capacidade mental e liberar-se da rotina monótona dos dias que se sucedem sem nenhuma renovação; basta querer, pensar e realizar.

Não existe maior triunfo para a figura humana que pensar com liberdade e criar um futuro feliz através da própria inspiração.

Nagib Anderáos Neto

neto.nagib@gmail.com