Baruch Spinoza (1632-1677) era considerado por Ralph Waldo Emerson (1803-1882) um mestre querido. O iconoclasta sem martelo que ensinava por toda a América a ousadia da construção do destino individual foi um cientista da alegria que cedo aprendeu que o coração da Natureza batia em uníssono com o seu. O panteísmo de Spinoza encontrara um eco profundo no coração do americano que considerara que cada indivíduo possuía um capital espiritual próprio voltado para a beleza, a alegria, a amizade e a paz.
Emerson gostava de falar para a gente simples que o compreendia com o coração. “Cada homem, cada parte humana dessa entidade divina conhecida como humanidade, é um Deus em formação”, escrevera; e “este mundo pertence aos alegres, aos enérgicos, aos ousados”.
O panteísmo de Spinoza considerava que Deus e a Natureza são a mesma coisa; que o Universo é a realização de Deus, sua face visível, e os seus seres singulares são a manifestação de uma única substância.
Se a substância essencial e original do monismo de Spinoza está presente em tudo quanto existe, especialmente representada no homem, o amor fraterno deveria surgir no coração de todos os homens como resultado do sentimento panteísta. Onde não existe amor, não há evolução, não há ética nem moral.
“Não deverei eu chamar de Deus o Belo que diariamente se mostra para mim no dom da Amizade?”, escreveu Emerson.
Ao constatar que as grosseiras muralhas dos defeitos humanos afastam os homens criando as inimizades, não podemos deixar de considerá-los como as causas do afastamento do homem de Deus, que está magnificamente representado em cada inteligência e sensibilidade humanas que têm sido entorpecidas e petrificadas pela ignorância e pelos preconceitos.
Lutar pelo aperfeiçoamento psicológico pessoal, identificando e combatendo os defeitos que impedem o cultivo de amizades, como a intolerância, a vaidade, a ambição e o egoísmo, entre outros, é única forma inteligente de cultivar o panteísmo que aproxima o ser humano de seus semelhantes, da Natureza e de Deus, para viver o aforismo axiomático de Abrahan Lincoln:
“Quando faço o bem, sinto-me bem. Quando faço o mal, sinto-me mal; esta é a minha religião”.
A síntese do panteísmo de Emerson é que “a essência de Deus é o amor”, e “um amigo é uma obra prima da Natureza”.
“O único modo de ter amigos é ser amigo”.
Nagib Anderáos Neto
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quinta-feira, 7 de outubro de 2010
sábado, 24 de julho de 2010
Voltaire e o Próprio Jardim
Eu lera que cada um deveria cuidar do próprio jardim naquele curioso livro de Voltaire, o Cândido. Não sei por qual motivo me interessara pelo filósofo francês. Estávamos no início da década de setenta, e a rebeldia era um fator comum na juventude universitária que gostava de ler, contestar, participar das transformações que ocorriam no âmbito das idéias por todo o mundo.
François Marie Arouet de Voltaire fora um rebelde. Insurgira-se contra o poder estabelecido pela nobreza e pelo clero, e suas obras críticas fizeram com que vivesse boa parte de sua vida fora do país, fugido, escondido, disfarçado. A idéia de justiça fora sempre a base de seus princípios éticos. Era contrário à intolerância, à superstição e ao fanatismo causador das guerras. Os verdadeiros benfeitores da humanidade não seriam os generais, senão os filósofos, os cientistas, os poetas.
Ele foi considerado o príncipe do Iluminismo, das luzes, da clareza. Teve seus escritos queimados e foi difamado por ter lutado pelas liberdades individuais, pela tolerância, pela paz, contra as injustiças. Seus principais inimigos eram as superstições e o fanatismo que levavam ao crime e à “loucura infernal“. Tinha esperança numa nova geração onde imperasse o reino da razão, e um conceito avançado de Deus como sendo a inteligência disseminada na Natureza; era contrário à tendência corrente de impingir em Deus características humanas. Terminou seus dias cético, mergulhado num mundo fanatizado por idéias, fronteiras, etnias e religiões diversas.
Do Cândido recordo-me do jardim - a metáfora que indicava que cada um deveria cuidar muito bem da própria vida -. Mas como? Como cuidar dela como se fosse um jardim, cultivando plantas e árvores que a embelezassem e compusessem a paisagem de uma rua, uma cidade, um país? Como deixar de se ocupar dos jardins alheios, ficando o próprio descuidado, desarrumado, cheio de ervas daninhas e flores murchas?
Com o tempo e os anos que se sucederam compreendi que a vida deveria ter um significado e um objetivo claro ; que viver por viver acabaria por levar a mim - ou a quem assim o fizesse - para um beco sem saída, um muro de lamentações e desditas; que viver deveria significar, antes de tudo, aprender a se conduzir por estes caminhos, tantas vezes tortuosos, criados pela incompreensão humana; que dentro desta grande oportunidade eu poderia aprender a conviver com os semelhantes.
Muitos anos depois eu leria numa conferência pronunciada por González Pecotche em Buenos Aires que cada um deveria deixar de se ocupar das mentes alheias. Recordei-me das antigas leituras juvenis e da rebeldia do filósofo francês. Deixar de ser autômato, comandado por preconceitos seculares, pensar por própria conta, ocupar-se da vida, da mente, para que ela pudesse se transformar num belo jardim.
“A vida deve ser cuidada e enaltecida; devem ser cultivadas todas as possibilidades que encerra e fazer dela um jardim, que seja apenas pela felicidade de recolher, de quando em quando, de cada planta que a própria mão semeou, cultivou e aperfeiçoou, uma flor. O conjunto de todas estas plantas serão as obras realizadas; as flores, as conseqüências úteis dessas obras. Porém, a planta principal, a planta humana, na qual se concentram todos os movimentos da concepção interior, esta merece o maior dos cuidados e a maior atenção” dissera o pensador numa palestra preferida em Montevidéu no ano de 1947.
Nagib Anderáos Neto
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François Marie Arouet de Voltaire fora um rebelde. Insurgira-se contra o poder estabelecido pela nobreza e pelo clero, e suas obras críticas fizeram com que vivesse boa parte de sua vida fora do país, fugido, escondido, disfarçado. A idéia de justiça fora sempre a base de seus princípios éticos. Era contrário à intolerância, à superstição e ao fanatismo causador das guerras. Os verdadeiros benfeitores da humanidade não seriam os generais, senão os filósofos, os cientistas, os poetas.
Ele foi considerado o príncipe do Iluminismo, das luzes, da clareza. Teve seus escritos queimados e foi difamado por ter lutado pelas liberdades individuais, pela tolerância, pela paz, contra as injustiças. Seus principais inimigos eram as superstições e o fanatismo que levavam ao crime e à “loucura infernal“. Tinha esperança numa nova geração onde imperasse o reino da razão, e um conceito avançado de Deus como sendo a inteligência disseminada na Natureza; era contrário à tendência corrente de impingir em Deus características humanas. Terminou seus dias cético, mergulhado num mundo fanatizado por idéias, fronteiras, etnias e religiões diversas.
Do Cândido recordo-me do jardim - a metáfora que indicava que cada um deveria cuidar muito bem da própria vida -. Mas como? Como cuidar dela como se fosse um jardim, cultivando plantas e árvores que a embelezassem e compusessem a paisagem de uma rua, uma cidade, um país? Como deixar de se ocupar dos jardins alheios, ficando o próprio descuidado, desarrumado, cheio de ervas daninhas e flores murchas?
Com o tempo e os anos que se sucederam compreendi que a vida deveria ter um significado e um objetivo claro ; que viver por viver acabaria por levar a mim - ou a quem assim o fizesse - para um beco sem saída, um muro de lamentações e desditas; que viver deveria significar, antes de tudo, aprender a se conduzir por estes caminhos, tantas vezes tortuosos, criados pela incompreensão humana; que dentro desta grande oportunidade eu poderia aprender a conviver com os semelhantes.
Muitos anos depois eu leria numa conferência pronunciada por González Pecotche em Buenos Aires que cada um deveria deixar de se ocupar das mentes alheias. Recordei-me das antigas leituras juvenis e da rebeldia do filósofo francês. Deixar de ser autômato, comandado por preconceitos seculares, pensar por própria conta, ocupar-se da vida, da mente, para que ela pudesse se transformar num belo jardim.
“A vida deve ser cuidada e enaltecida; devem ser cultivadas todas as possibilidades que encerra e fazer dela um jardim, que seja apenas pela felicidade de recolher, de quando em quando, de cada planta que a própria mão semeou, cultivou e aperfeiçoou, uma flor. O conjunto de todas estas plantas serão as obras realizadas; as flores, as conseqüências úteis dessas obras. Porém, a planta principal, a planta humana, na qual se concentram todos os movimentos da concepção interior, esta merece o maior dos cuidados e a maior atenção” dissera o pensador numa palestra preferida em Montevidéu no ano de 1947.
Nagib Anderáos Neto
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quinta-feira, 13 de maio de 2010
O Homem Não É Um Animal
Pensar por própria conta custa certo esforço, como todo ato criativo, e exige preparo, treino, exercício diário. É diferente de sonhar, lembrar, imaginar. Ao criar, a imaginação, o sonho e a recordação poderão ajudar. Seja uma pintura, um filho, um pensamento, o criador se confunde com sua obra, vive nela.
Pensar é respirar. Sem ar o corpo expira. Sem pensar, a alma dorme. Quem não pensa vive repetindo coisas pensadas por outros, submete-se, repete-se.
A rotina é inimiga da criação, como a preguiça, a indiferença e o conformismo. Os animais se repetem, o homem pode se diferenciar, se transformar, mudar no breve hiato entre o nascimento e o desenlace fatal. Se ele fosse um animal – com o perdão de Darwin – estaria sujeito à lenta lei evolutiva que rege todos os processos da Natureza.O fato de se cogitar que os seres vivos descendam de um ancestral comum não significa que o homem, resultado de uma evolução biológica, seja um animal. Devemos nos contrapor às ondas anacrônicas do criacionismo, mas daí a nos nivelar aos animais é um pouco diferente. Como tem inteligência e pode ser consciente, seu corpo está sujeito àquela lei em sua conformação biológica, mas sua inteligência e sua sensibilidade, sua alma enfim, podem empreender a sucessão de mudanças evolutivas que os conhecimentos permitem.
A rotina leva à depressão. A monotonia da repetição traz tristeza. Alegria tem a ver com renovação.A passividade e a ignorância podem nos levar a nos confundirmos com os animais. A atividade e o conhecimento nos elevam e nos liberam da mediocridade que nos querem impor os mercadores da verdade.
As perguntas que todos devem se formular são as seguintes: Por que estou neste mundo? O que devo fazer dele? O meu nascimento e minha vida são obra do acaso ou têm uma finalidade? O meu existir é contingente?
Talvez tenhamos nascido para viver, criar e sonhar. Talvez para saber a razão desta existência. A passividade e a ignorância podem nos levar a confundirmo-nos com os animais. A atividade e o conhecimento nos elevam e nos liberam da mediocridade que nos querem impor os impostores.
O fato de se cogitar que os seres vivos descendam de um ancestral comum não significa afirmar que o homem, resultado de uma evolução biológica, seja um animal. Se não somos filhos privilegiados desta criação, por que somente o homem é capaz de pensar, criar e se modificar?
O homem do futuro, biológica e mentalmente falando, será herdeiro do homem do presente. Os evolucionistas céticos parecem não perceber essa ligação hereditária, pois ao homem biológico sucedem os pensamentos que ele for capaz de criar, dar vida, e que a ele sobreviverão, e poderão inspirar outros homens a que pensem também, que criem pensamentos que se imortalizem em obras que beneficiem a toda a espécie.
A vida do homem na Terra é um átimo no infinito processo universal. Espelhar-se nele é fator inteligente para a pequena espécie que, prematuramente, muito grande se julga.
Os céticos dizem que todo esse processo evolutivo é obra do acaso. Seria o caso de lhes perguntar se o que entendem por acaso não seria o Deus mesmo.Nada a ver com os deuses imaginários criados por mentes pré-históricas que encabeçaram empresas lucrativas que vêm explorando a ingenuidade dos incautos, senão aquele cuja face visível é o Universo, e a invisível os processos que o homem vai descobrindo através de sua incipiente ciência e sua consciência em formação.
Nagib Anderáos Neto
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Pensar é respirar. Sem ar o corpo expira. Sem pensar, a alma dorme. Quem não pensa vive repetindo coisas pensadas por outros, submete-se, repete-se.
A rotina é inimiga da criação, como a preguiça, a indiferença e o conformismo. Os animais se repetem, o homem pode se diferenciar, se transformar, mudar no breve hiato entre o nascimento e o desenlace fatal. Se ele fosse um animal – com o perdão de Darwin – estaria sujeito à lenta lei evolutiva que rege todos os processos da Natureza.O fato de se cogitar que os seres vivos descendam de um ancestral comum não significa que o homem, resultado de uma evolução biológica, seja um animal. Devemos nos contrapor às ondas anacrônicas do criacionismo, mas daí a nos nivelar aos animais é um pouco diferente. Como tem inteligência e pode ser consciente, seu corpo está sujeito àquela lei em sua conformação biológica, mas sua inteligência e sua sensibilidade, sua alma enfim, podem empreender a sucessão de mudanças evolutivas que os conhecimentos permitem.
A rotina leva à depressão. A monotonia da repetição traz tristeza. Alegria tem a ver com renovação.A passividade e a ignorância podem nos levar a nos confundirmos com os animais. A atividade e o conhecimento nos elevam e nos liberam da mediocridade que nos querem impor os mercadores da verdade.
As perguntas que todos devem se formular são as seguintes: Por que estou neste mundo? O que devo fazer dele? O meu nascimento e minha vida são obra do acaso ou têm uma finalidade? O meu existir é contingente?
Talvez tenhamos nascido para viver, criar e sonhar. Talvez para saber a razão desta existência. A passividade e a ignorância podem nos levar a confundirmo-nos com os animais. A atividade e o conhecimento nos elevam e nos liberam da mediocridade que nos querem impor os impostores.
O fato de se cogitar que os seres vivos descendam de um ancestral comum não significa afirmar que o homem, resultado de uma evolução biológica, seja um animal. Se não somos filhos privilegiados desta criação, por que somente o homem é capaz de pensar, criar e se modificar?
O homem do futuro, biológica e mentalmente falando, será herdeiro do homem do presente. Os evolucionistas céticos parecem não perceber essa ligação hereditária, pois ao homem biológico sucedem os pensamentos que ele for capaz de criar, dar vida, e que a ele sobreviverão, e poderão inspirar outros homens a que pensem também, que criem pensamentos que se imortalizem em obras que beneficiem a toda a espécie.
A vida do homem na Terra é um átimo no infinito processo universal. Espelhar-se nele é fator inteligente para a pequena espécie que, prematuramente, muito grande se julga.
Os céticos dizem que todo esse processo evolutivo é obra do acaso. Seria o caso de lhes perguntar se o que entendem por acaso não seria o Deus mesmo.Nada a ver com os deuses imaginários criados por mentes pré-históricas que encabeçaram empresas lucrativas que vêm explorando a ingenuidade dos incautos, senão aquele cuja face visível é o Universo, e a invisível os processos que o homem vai descobrindo através de sua incipiente ciência e sua consciência em formação.
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O Mito de Pandora
Zeus – o deus supremo da mitologia grega - é fruto de uma complicada teogonia que se assemelha à genealogia humana. Bravo e vingativo, o deus dos gregos casou-se inúmeras vezes gerando uma sucessão de deuses menores: Apolo, Hebe, Hermes, as Musas, etc.
Diz-se do estranho chefe do Olimpo que havia ódio em seu coração e que tinha prazer em castigar os homens. E que certa vez, para vingar-se de certo humano de nome Prometeu que roubara uma faísca do sol para com ela iluminar a inteligência humana, o mal humorado superintendente celeste resolve castigá-los fazendo-os perder-se para sempre por meio de uma mulher extremamente bela, detentora de todos os dons, Pandora, a primeira mulher!
Ela é criada e enviada para Epimeteu (o que vê depois), embora Prometeu (o previdente) houvesse aconselhado seu irmão a não aceitar nenhum presente de Zeus de quem desconfiava muito. Ela traz consigo do Olimpo um presente de núpcias para Epimeteu: uma arca de ouro hermeticamente fechada.
Segundo Hesíodo, o poeta camponês, Pandora teria aberto a caixa levada pela curiosidade feminina de onde saem todas as desgraças e calamidades para os homens que viviam tranqüilos e felizes até então. Ao fechá-la, depois, rapidamente, conseguiu prender em seu interior a esperança que por séculos ficaria encerrada como uma promessa de retorno aos felizes e ditosos tempos da infância da espécie humana sobre a Terra.
A curiosa lenda traz consigo muitos aspectos interessantes relacionados com outras lendas e crendices que fazem parte de outras culturas e com muitos preconceitos que até hoje existem.
Sobre a curiosidade da primeira mulher, que muito tem a ver com a indiscrição (e que não é somente feminina), e as conseqüências desastrosas de um defeito tão generalizado, pode-se dizer que na história real do ser humano essa curiosidade transformou-se num terrível defeito que tem causado muitas desgraças e calamidades. A curiosidade conduz ao intrometimento, à indiscrição, à superficialidade, à vulgaridade, ao efêmero. Compreensível no homem pré-histórico e nas crianças, que de certa forma reproduzem a evolução da espécie desde os primeiros tempos, e também nos homens de ciência em suas investigações, é inaceitável para o homem de hoje quando o torna distante de si mesmo, atento a tudo quanto ocorre ao seu redor, mas alheio ao que ocorre com ele próprio, com sua própria pessoa.
O mito de Pandora pode nos levar a muitas conclusões: desde a inutilidade de um deus vingativo até a necessidade humana de transcender estados inferiores de evolução, passando, também, pela necessidade de rever os preconceitos que existem em relação à mulher cuja graça e beleza não poderia nunca ser o invólucro do pecado e da desgraça especialmente encomendados por um Zeus duvidoso.
A esperança, providencialmente encerrada na caixa de Pandora, residiria na possibilidade da superação das condições humanas a partir da evolução pessoal de cada indivíduo que sentisse a necessidade de construir um mundo melhor para si mesmo e para a humanidade do futuro.
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Nagib Anderáos Neto
Publicado no Recanto das Letras em 01/09/2005
Código do texto: T46842
Diz-se do estranho chefe do Olimpo que havia ódio em seu coração e que tinha prazer em castigar os homens. E que certa vez, para vingar-se de certo humano de nome Prometeu que roubara uma faísca do sol para com ela iluminar a inteligência humana, o mal humorado superintendente celeste resolve castigá-los fazendo-os perder-se para sempre por meio de uma mulher extremamente bela, detentora de todos os dons, Pandora, a primeira mulher!
Ela é criada e enviada para Epimeteu (o que vê depois), embora Prometeu (o previdente) houvesse aconselhado seu irmão a não aceitar nenhum presente de Zeus de quem desconfiava muito. Ela traz consigo do Olimpo um presente de núpcias para Epimeteu: uma arca de ouro hermeticamente fechada.
Segundo Hesíodo, o poeta camponês, Pandora teria aberto a caixa levada pela curiosidade feminina de onde saem todas as desgraças e calamidades para os homens que viviam tranqüilos e felizes até então. Ao fechá-la, depois, rapidamente, conseguiu prender em seu interior a esperança que por séculos ficaria encerrada como uma promessa de retorno aos felizes e ditosos tempos da infância da espécie humana sobre a Terra.
A curiosa lenda traz consigo muitos aspectos interessantes relacionados com outras lendas e crendices que fazem parte de outras culturas e com muitos preconceitos que até hoje existem.
Sobre a curiosidade da primeira mulher, que muito tem a ver com a indiscrição (e que não é somente feminina), e as conseqüências desastrosas de um defeito tão generalizado, pode-se dizer que na história real do ser humano essa curiosidade transformou-se num terrível defeito que tem causado muitas desgraças e calamidades. A curiosidade conduz ao intrometimento, à indiscrição, à superficialidade, à vulgaridade, ao efêmero. Compreensível no homem pré-histórico e nas crianças, que de certa forma reproduzem a evolução da espécie desde os primeiros tempos, e também nos homens de ciência em suas investigações, é inaceitável para o homem de hoje quando o torna distante de si mesmo, atento a tudo quanto ocorre ao seu redor, mas alheio ao que ocorre com ele próprio, com sua própria pessoa.
O mito de Pandora pode nos levar a muitas conclusões: desde a inutilidade de um deus vingativo até a necessidade humana de transcender estados inferiores de evolução, passando, também, pela necessidade de rever os preconceitos que existem em relação à mulher cuja graça e beleza não poderia nunca ser o invólucro do pecado e da desgraça especialmente encomendados por um Zeus duvidoso.
A esperança, providencialmente encerrada na caixa de Pandora, residiria na possibilidade da superação das condições humanas a partir da evolução pessoal de cada indivíduo que sentisse a necessidade de construir um mundo melhor para si mesmo e para a humanidade do futuro.
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Nagib Anderáos Neto
Publicado no Recanto das Letras em 01/09/2005
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segunda-feira, 19 de abril de 2010
A Fé em Si
Fechar os olhos para a realidade e acreditar na ficção que criamos ou que nos é imposta constitui a verdadeira e maior cegueira.
Saber significa ver a realidade, penetrar em sua superfície e aproximar-se da verdade. Tem muito a ver com sabor, experimentação, comprovação; significa liberar-se da cegueira da ilusão; afastar-se de tudo quanto se oponha à realidade, à verdade. Não pode haver outra fé que não seja em si; ninguém haverá de resolver por nós o que nos incumbe. A fé no que se ignora implica submissão; por esse motivo, os tiranos são hábeis em inventar mentiras para submeter pessoas humildes e simples e tristemente adjetivadas de boa-fé.
O autoconhecimento deve implicar o afastamento das ilusões que se avolumam e nos levam às desilusões que muito têm a ver com a depressão e a tristeza. Aprender a viver próximo da realidade é uma forma de estar junto da felicidade.
A vida se amplia quando nela colocamos muitas atividades com possibilidades de realização. E se algum fracasso sobrevier – coisa que invariavelmente acontece -, ele pode se transformar na base de um futuro acerto. O essencial é procurar estar sempre muito próximo da realidade.
Os problemas que enfrentamos são criados por nós: falta de previsão, ilusões e ignorância. A felicidade pode estar muito perto e não a estarmos vendo pela cegueira que nos impede contemplar a vida, as pessoas e o mundo com outros e novos olhos que reconheçam em seus detalhes os verdadeiros momentos de alegria e felicidade: um amanhecer, uma amizade, um pequeno aprendizado, pois viver deveria ser um grande motivo de alegria.
Aquilo que não se compreende não se possui, escreveu certa vez Goethe. A compreensão implica apreensão total, posse, integração de um fragmento de verdade ao patrimônio pessoal. Uma ilustração interior, culminação fruto de um processo no qual a inteligência e a sensibilidade participam. Um fragmento de verdade pode ser vislumbrado pela intuição, mas deverá ser confirmado pela razão para que faça parte do patrimônio individual. Se não se confirma, propende-se à fé cega, anulação da inteligência, falência da mente e do espírito. O que se compreendeu implica uma fé consciente fruto da comprovação da verdade pela razão. A compreensão é de índole espiritual; acrescenta ao espírito o que lhe falta. Nada tem a ver com a ilustração do intelecto, senão com a formação do espírito individual.
A necessidade espiritual - o vazio interior, fome por verdade e conhecimento - existe em todos. Uma fome que tem sido alimentada com o pão amanhecido da ilusão e da tergiversação.
A fé no futuro deveria significar a fé em si pelo que se é capaz de fazer pela vida, fé consciente que se chega pela compreensão, posse gradativa de fragmentos de verdade que se obtém no decorrer de um processo, liberação espiritual que somente o indivíduo pode fazer por si.
Nagib Anderáos Neto
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Saber significa ver a realidade, penetrar em sua superfície e aproximar-se da verdade. Tem muito a ver com sabor, experimentação, comprovação; significa liberar-se da cegueira da ilusão; afastar-se de tudo quanto se oponha à realidade, à verdade. Não pode haver outra fé que não seja em si; ninguém haverá de resolver por nós o que nos incumbe. A fé no que se ignora implica submissão; por esse motivo, os tiranos são hábeis em inventar mentiras para submeter pessoas humildes e simples e tristemente adjetivadas de boa-fé.
O autoconhecimento deve implicar o afastamento das ilusões que se avolumam e nos levam às desilusões que muito têm a ver com a depressão e a tristeza. Aprender a viver próximo da realidade é uma forma de estar junto da felicidade.
A vida se amplia quando nela colocamos muitas atividades com possibilidades de realização. E se algum fracasso sobrevier – coisa que invariavelmente acontece -, ele pode se transformar na base de um futuro acerto. O essencial é procurar estar sempre muito próximo da realidade.
Os problemas que enfrentamos são criados por nós: falta de previsão, ilusões e ignorância. A felicidade pode estar muito perto e não a estarmos vendo pela cegueira que nos impede contemplar a vida, as pessoas e o mundo com outros e novos olhos que reconheçam em seus detalhes os verdadeiros momentos de alegria e felicidade: um amanhecer, uma amizade, um pequeno aprendizado, pois viver deveria ser um grande motivo de alegria.
Aquilo que não se compreende não se possui, escreveu certa vez Goethe. A compreensão implica apreensão total, posse, integração de um fragmento de verdade ao patrimônio pessoal. Uma ilustração interior, culminação fruto de um processo no qual a inteligência e a sensibilidade participam. Um fragmento de verdade pode ser vislumbrado pela intuição, mas deverá ser confirmado pela razão para que faça parte do patrimônio individual. Se não se confirma, propende-se à fé cega, anulação da inteligência, falência da mente e do espírito. O que se compreendeu implica uma fé consciente fruto da comprovação da verdade pela razão. A compreensão é de índole espiritual; acrescenta ao espírito o que lhe falta. Nada tem a ver com a ilustração do intelecto, senão com a formação do espírito individual.
A necessidade espiritual - o vazio interior, fome por verdade e conhecimento - existe em todos. Uma fome que tem sido alimentada com o pão amanhecido da ilusão e da tergiversação.
A fé no futuro deveria significar a fé em si pelo que se é capaz de fazer pela vida, fé consciente que se chega pela compreensão, posse gradativa de fragmentos de verdade que se obtém no decorrer de um processo, liberação espiritual que somente o indivíduo pode fazer por si.
Nagib Anderáos Neto
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terça-feira, 6 de abril de 2010
A Arte de Amar
The Art of Loving, o título original americano. No Brasil, publicado em 1960, fez grande sucesso entre jovens leitores, e Erich Fromm tornou-se autor consagrado. Quem não leu, ouviu falar. Os jovens se revoltaram contra o autoritarismo, as superstições e as guerras. Certas leituras eram obrigatórias: Simone, Hesse, Amado, Bertrand Russel. Os pais autoritários e o governo militar eram os alvos preferidos daquela rebeldia. O “Por que não sou Cristão” de Russel andava de mãos em mãos.
A ordem era ampliar a área da consciência, diziam os intelectuais de plantão, sem que tivessem uma idéia clara do que fosse a consciência. Soava bem. Da mesma forma que a inadmissibilidade do amor sem conhecimento.
Sendo o amor uma arte, exigiria esforço e conhecimento. E o domínio dela nada teria a ver com sucesso, poder, dinheiro. Sem ele, a humanidade não existiria. Implicaria cuidado, responsabilidade, trabalho, respeito, dedicação e liberdade.
O egoísta, por outro lado, veria apenas a si, endurecendo o coração. O amor-próprio e o egoísmo levariam à solidão. Ao ajudar o outro, deixaria de estar só; e teria muito a ver com o amor a Deus despertado pelo amor ao homem, à humanidade.
Sem amor, a humanidade não existiria. Nele ocorre o paradoxo de que duas pessoas sejam uma, embora permanecendo duas.
O homem moderno se tem distanciado dele por só pensar em produzir e consumir. A eficiência da economia é medida por estes parâmetros. E desta forma, afastando-se do amor, ele passa a ser parte de um grande rebanho sem individualidade; obedece, trabalha ,consome numa vida rotineira e mecanizada. Não muda, não se supera, tudo é trabalho, consumo e diversão.
A cultura contemporânea afastou o homem do amor por estar baseada numa falsa liberdade política e na equivocada idéia de que o mercado tudo regula.
Dirigentes são impostos por partidos, agrupamentos, associações e sindicatos que são dirigidos por pessoas que vêm o próprio interesse acima do comum. O mercado é regido por grandes empresas internacionais associadas a governos, impondo produtos, preços e padrão de consumo. A grande mídia nas mãos de grandes empresas autorizadas por governos que direcionam as pessoas para que consumam o que não necessitam.
Os homens querem consumir cada vez mais: coisas, informações inúteis, imagens de violência e desgraça; seres previsíveis e influenciáveis, distantes cada vez mais dos semelhantes e da Natureza.
Na Arte de Amar o autor afirma que Freud escreveu muita bobagem, como, por exemplo, que o amor é um fenômeno irracional; que enamorar-se seria tornar-se anormal, cegar-se.Mentes confusas como as de Freud e Marx apontando para uma felicidade utópica apoiada no sexo, riqueza, ceticismo e acaso.
O livro trata da teoria e prática do amor, e de tudo o que o exclui. Diz que a prática não pode ser ensinada, senão praticada, já que como gérmen ele existe no coração de todo o ser humano. Exige certa disciplina de vida, nada tendo a ver com a rotina diária de um trabalho aborrecido e repetitivo. E também concentração e paciência. Diz o autor que “o homem moderno pensa que perde alguma coisa – o tempo – quando não faz as coisas rapidamente; todavia, ele não sabe o que fazer com o tempo que ganha – a não ser matá-lo“. E que se deve ser “ativo em pensamento, sentimento, olhos e ouvidos, o dia inteiro“; concluindo que “o amor é a última e real necessidade do ser humano”.
Nagib Anderáos Neto
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A ordem era ampliar a área da consciência, diziam os intelectuais de plantão, sem que tivessem uma idéia clara do que fosse a consciência. Soava bem. Da mesma forma que a inadmissibilidade do amor sem conhecimento.
Sendo o amor uma arte, exigiria esforço e conhecimento. E o domínio dela nada teria a ver com sucesso, poder, dinheiro. Sem ele, a humanidade não existiria. Implicaria cuidado, responsabilidade, trabalho, respeito, dedicação e liberdade.
O egoísta, por outro lado, veria apenas a si, endurecendo o coração. O amor-próprio e o egoísmo levariam à solidão. Ao ajudar o outro, deixaria de estar só; e teria muito a ver com o amor a Deus despertado pelo amor ao homem, à humanidade.
Sem amor, a humanidade não existiria. Nele ocorre o paradoxo de que duas pessoas sejam uma, embora permanecendo duas.
O homem moderno se tem distanciado dele por só pensar em produzir e consumir. A eficiência da economia é medida por estes parâmetros. E desta forma, afastando-se do amor, ele passa a ser parte de um grande rebanho sem individualidade; obedece, trabalha ,consome numa vida rotineira e mecanizada. Não muda, não se supera, tudo é trabalho, consumo e diversão.
A cultura contemporânea afastou o homem do amor por estar baseada numa falsa liberdade política e na equivocada idéia de que o mercado tudo regula.
Dirigentes são impostos por partidos, agrupamentos, associações e sindicatos que são dirigidos por pessoas que vêm o próprio interesse acima do comum. O mercado é regido por grandes empresas internacionais associadas a governos, impondo produtos, preços e padrão de consumo. A grande mídia nas mãos de grandes empresas autorizadas por governos que direcionam as pessoas para que consumam o que não necessitam.
Os homens querem consumir cada vez mais: coisas, informações inúteis, imagens de violência e desgraça; seres previsíveis e influenciáveis, distantes cada vez mais dos semelhantes e da Natureza.
Na Arte de Amar o autor afirma que Freud escreveu muita bobagem, como, por exemplo, que o amor é um fenômeno irracional; que enamorar-se seria tornar-se anormal, cegar-se.Mentes confusas como as de Freud e Marx apontando para uma felicidade utópica apoiada no sexo, riqueza, ceticismo e acaso.
O livro trata da teoria e prática do amor, e de tudo o que o exclui. Diz que a prática não pode ser ensinada, senão praticada, já que como gérmen ele existe no coração de todo o ser humano. Exige certa disciplina de vida, nada tendo a ver com a rotina diária de um trabalho aborrecido e repetitivo. E também concentração e paciência. Diz o autor que “o homem moderno pensa que perde alguma coisa – o tempo – quando não faz as coisas rapidamente; todavia, ele não sabe o que fazer com o tempo que ganha – a não ser matá-lo“. E que se deve ser “ativo em pensamento, sentimento, olhos e ouvidos, o dia inteiro“; concluindo que “o amor é a última e real necessidade do ser humano”.
Nagib Anderáos Neto
www.nagibanderaos.com.br
terça-feira, 9 de março de 2010
O Homem Não É Um Animal
Pensar por própria conta custa certo esforço, como todo ato criativo, e exige preparo, treino, exercício diário. É diferente de sonhar, lembrar, imaginar. Ao criar, a imaginação, o sonho e a recordação poderão ajudar. Seja uma pintura, um filho, um pensamento, o criador se confunde com sua obra, vive nela.
Pensar é respirar. Sem ar o corpo expira. Sem pensar, a alma dorme. Quem não pensa vive repetindo coisas pensadas por outros, submete-se, repete-se.
A rotina é inimiga da criação, como a preguiça, a indiferença e o conformismo. Os animais se repetem, o homem pode se diferenciar, se transformar, mudar no breve hiato entre o nascimento e o desenlace fatal. Se ele fosse um animal – com o perdão de Darwin – estaria sujeito à lenta lei evolutiva que rege todos os processos da Natureza.O fato de se cogitar que os seres vivos descendam de um ancestral comum não significa que o homem, resultado de uma evolução biológica, seja um animal. Devemos nos contrapor às ondas anacrônicas do criacionismo, mas daí a nos nivelar aos animais é um grande equívoco. Como tem inteligência e pode ser consciente, seu corpo está sujeito àquela lei em sua conformação biológica, mas sua inteligência e sensibilidade, sua alma enfim, podem empreender a sucessão de mudanças evolutivas que os conhecimentos permitem.
A rotina leva à depressão. A monotonia da repetição traz tristeza. Alegria tem a ver com renovação.A passividade e a ignorância podem nos levar a nos confundirmos com os animais. A atividade e o conhecimento nos elevam e nos liberam da mediocridade que nos querem impor os impostores.
As perguntas que todos devemos nos formular são as seguintes: Por que estou neste mundo? O que devo fazer dele? O meu nascimento e minha vida são obra do acaso ou têm uma finalidade? O meu existir é contingente?
Talvez tenhamos nascido para viver, criar e sonhar. Talvez para saber a razão desta existência. A atividade e o conhecimento nos elevam e nos liberam da mediocridade que nos querem impor os mercadores da verdade.
Se não somos filhos privilegiados desta criação, por que somente nós somos capazes de pensar, criar e nos modificar?
O homem do futuro, biológica e mentalmente falando, será herdeiro do homem do presente. Os evolucionistas céticos parecem não perceber essa ligação hereditária, pois ao homem biológico sucedem os pensamentos que ele for capaz de criar, dar vida, e que a ele sobreviverão, e poderão inspirar outros homens a que pensem também, que criem pensamentos que se imortalizem em obras que beneficiem a toda a espécie.
A vida do homem na Terra é um átimo no infinito processo universal. Espelhar-se nele é fator inteligente para a pequena espécie, que, prematuramente, muito grande se julga. Os céticos dizem que todo esse processo evolutivo é obra do acaso. Seria o caso de lhes perguntar se o que entendem por acaso não seria o próprio Deus. Nada a ver com os deuses imaginários criados por mentes pré-históricas que encabeçaram empresas lucrativas que vêm explorando a ingenuidade dos incautos, senão aquele cuja face visível é o Universo, e a invisível os processos que o homem vai descobrindo através de sua incipiente ciência e sua consciência em formação.
Nagib Anderáos Neto
www.nagibanderaos.com.br
Pensar é respirar. Sem ar o corpo expira. Sem pensar, a alma dorme. Quem não pensa vive repetindo coisas pensadas por outros, submete-se, repete-se.
A rotina é inimiga da criação, como a preguiça, a indiferença e o conformismo. Os animais se repetem, o homem pode se diferenciar, se transformar, mudar no breve hiato entre o nascimento e o desenlace fatal. Se ele fosse um animal – com o perdão de Darwin – estaria sujeito à lenta lei evolutiva que rege todos os processos da Natureza.O fato de se cogitar que os seres vivos descendam de um ancestral comum não significa que o homem, resultado de uma evolução biológica, seja um animal. Devemos nos contrapor às ondas anacrônicas do criacionismo, mas daí a nos nivelar aos animais é um grande equívoco. Como tem inteligência e pode ser consciente, seu corpo está sujeito àquela lei em sua conformação biológica, mas sua inteligência e sensibilidade, sua alma enfim, podem empreender a sucessão de mudanças evolutivas que os conhecimentos permitem.
A rotina leva à depressão. A monotonia da repetição traz tristeza. Alegria tem a ver com renovação.A passividade e a ignorância podem nos levar a nos confundirmos com os animais. A atividade e o conhecimento nos elevam e nos liberam da mediocridade que nos querem impor os impostores.
As perguntas que todos devemos nos formular são as seguintes: Por que estou neste mundo? O que devo fazer dele? O meu nascimento e minha vida são obra do acaso ou têm uma finalidade? O meu existir é contingente?
Talvez tenhamos nascido para viver, criar e sonhar. Talvez para saber a razão desta existência. A atividade e o conhecimento nos elevam e nos liberam da mediocridade que nos querem impor os mercadores da verdade.
Se não somos filhos privilegiados desta criação, por que somente nós somos capazes de pensar, criar e nos modificar?
O homem do futuro, biológica e mentalmente falando, será herdeiro do homem do presente. Os evolucionistas céticos parecem não perceber essa ligação hereditária, pois ao homem biológico sucedem os pensamentos que ele for capaz de criar, dar vida, e que a ele sobreviverão, e poderão inspirar outros homens a que pensem também, que criem pensamentos que se imortalizem em obras que beneficiem a toda a espécie.
A vida do homem na Terra é um átimo no infinito processo universal. Espelhar-se nele é fator inteligente para a pequena espécie, que, prematuramente, muito grande se julga. Os céticos dizem que todo esse processo evolutivo é obra do acaso. Seria o caso de lhes perguntar se o que entendem por acaso não seria o próprio Deus. Nada a ver com os deuses imaginários criados por mentes pré-históricas que encabeçaram empresas lucrativas que vêm explorando a ingenuidade dos incautos, senão aquele cuja face visível é o Universo, e a invisível os processos que o homem vai descobrindo através de sua incipiente ciência e sua consciência em formação.
Nagib Anderáos Neto
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